sexta-feira, 22 de março de 2013

Trabalho de amor


   A vida de mãe nos leva a novas escolhas, novos pensamentos e atitudes. Uma nova visão do mundo se forma, com audição mais aguçada e resgate da nossa própria infância. Acredito que isso tudo vem com a maternidade, bem como questionamentos de como encaixar o que antes era tão perfeito como trabalho, marido e lazer. Inserir o filho na rotina louca, me encaixar na rotina dele, voltar a trabalhar, ficar em casa, creche, babá, vovó... muita coisa para pensar, pouco tempo para executar e se preparar para tanta mudança.
   O mundo é assim, rápido, sem esperas, com pressão, prazo, horário, moldes e rotinas. Quem entra na corrida não percebe, quem está fora dela tem vontade de acionar um freio, para ver se tudo anda mais devagar. Uma árvore florida no caminho, onde? Passei tão rápido que nem deu tempo para ver. Um passarinho cantando? Ah, já passou, nem consegui escutar. Meu filho aprendeu algo novo. Não consegui ver, tive ficar até mais tarde no trabalho. A vida passa como um rio, se não sentimos a água naquele momento ela nunca mais voltará. Passará outra água, mas nunca a mesma. Sem perceber deixamos de nos banhar em muitas águas, tendo a certeza de que virão outras, muitas vezes na ilusão de que serão melhores ou tão boas quanto aquela que acabou de passar.
   Vejo a maternidade desta forma, como um rio que me refresca e me faz viver momentos únicos. Às vezes vem como uma enxurrada, com grande volume de água, mas também é calmo e tranquilo.
   A vontade de apreciar esse rio correndo em minha vida me levou a cuidar do Nathan desde que ele nasceu. Meu principal trabalho é ser mãe, educar, vivenciar com ele suas conquista, auxiliar no que tem dificuldade, ter ideias de atividades, pesquisar sobre educação, ler, mostrar para ele o que há de belo no mundo e dentro do nosso coração. “Por favor”, “obrigado” e “eu te amo” também fazem parte dos ensinamentos. Dar amor, carinhos e beijos a qualquer hora do dia. Mostrar que as plantinhas precisam de água e que a água também serve para lavar as frutas. Ensiná-lo a ter iniciativa nas tarefas que lhe cabem e a trabalhar em equipe quando o assunto é arrumar a mesa, colocar roupas para lavar e organizar os brinquedos.
   Viver dessa forma me levou a novas descobertas... No meio de leituras e pesquisas fui apresentada a um livro onde aprendi a fazer brinquedos para o Nathan. E desses brinquedos surgiu a vontade de uma nova atividade profissional, onde pudesse ter uma renda e trabalhar perto do filho. Percebi que isso era possível e continuei caminhando. Nessa nova jornada, encontrei uma querida professora de bordado na escola Waldorf onde estudei quando criança. Lá, pude aprimorar minhas habilidades manuais para melhor confeccionar os brinquedos que iria vender. Tudo foi fluindo naturalmente... Um passo de cada vez, com encomendas, rapidez no bordado e ideias criativas (não consigo viver sem elas). Redescobrindo minhas habilidades e aprendi a trabalhar perto do filho. Sem culpa, sem saudade, com amor e certeza do que estava fazendo.
   Me vi como mãe empreendedora, como nunca imaginei que seria. Me vi como artesã, resgatando aprendizados da escola. Me vi como mulher multi tarefas, ainda assim feliz por poder participar ativamente da educação do filho. Me vi feliz, realizada, trabalhando no meu ritmo, sem fazer parte da corrida maluca do mundo.
   Nem todo mundo consegue viver assim, nem todo mundo quer viver assim. Nem sempre é fácil. Alguns acham que eu deveria estar construindo uma carreira de sucesso, outros acham que deveria colocar meu filho na creche. Alguns acham que tudo isso é perda de tempo, outros acham que para viver bem é preciso ter dinheiro.
   Eu quero construir uma vida de sucesso. Para isso, preciso dedicar tempo aquilo que me é importante, meu filho, meu marido, minha família, meus amigos. Perder tempo vivendo, para mim é ganho. Ganhar dinheiro e perder tudo isso para mim não vale a pena. Penso que muitas escolas são depósitos de criança e muito mais vale, neste início de vida aprender e viver com os pais, pois nós somos os verdadeiros educadores de nossos filhos.

   Viver dessa forma não tem preço. O dinheiro pode faltar ou parecer que não é suficiente. Mas temos outras coisas em nossa casa que não tem preço. São tesouros guardados em nosso coração fruto de nossas vivências e histórias diárias. Isso o dinheiro não compra e nenhum trabalho supre. São riquezas do coração, que compartilhamos livremente com quem quiser parar para dar um “bom dia” ou trocar umas palavras.
   Minha vida é simples, simplesmente feliz. Em cada bordado tem um história. Cada linha é costurada com sentimento e memórias. Os brinquedos passam pelo controle de qualidade chamado Nathan e sempre são elogiados pelo marido. Minha empresa é mutável, ora está no sofá, ora está na cama do Nathan, ora na mesa da sala, ora na cozinha. Sua organização contém brinquedos, pedaços de bolacha, linhas jogadas no chão e recebe cuidados rigorosos com agulhas, tesouras e alfinetes. O tempo investido nela depende das encomendas, mas muito mais do quanto a família precisa de mim. Filho doente, ritmo diminui, marido de férias, ritmo aumenta. E esse é o meu empreendedorismo materno, com ritmo próprio e apoio da família!


Vida de mãe empreendedora: o que você precisa saber antes de se tornar uma.


   Viver dessa forma assusta a maioria, mas me diverte. Alguns dias são difíceis, mas logo alguém me anima e sigo caminhando. A jornada 2013 começou em ritmo mais acelerado. Novos produtos e junto com eles uma parceira especial, como minha querida professora de bordado. Dama de ideias, arquitetura do pano, a elegância do tecido, a delicadeza do bordado, tudo feito a mão e criado com amor. Somos nós, Arquitetando Ideias & Damado Pano. Bordados e amizade crescendo juntos. Pareceria e aprendizado trilhando um novo caminho. Junto se vai mais longe e juntas vamos para bem longe... 






   Ser mãe empreendedora é fazer um trabalho de amor. Amor pelo filho, amor por mim e por tudo que existe de mais precioso na minha vida. É estar aberta ao que o mundo me apresenta de novo. Estar disposta a me molhar por inteiro nesse rio que não para de correr. Intenso, imenso, incessante, abundante, vivo e criativo. Sempre igual, mas nunca o mesmo. O rio da minha vida...

Como um rio
Thiago de Melo
Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.

E de levar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade das funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, sabe seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O despertar da imaginação


Nanú, amigo do Nathan
   Desde que me tornei mãe, passei a me encantar pelo desenvolvimento infantil. Observar o pensamento da criança se formando e se desenvolvendo, as brincadeiras tornando-se mais sólidas, a imaginação fazendo parte da realidade. Ver meu filho dando vida a cada brinquedo e boneco me faz pensar e apreciar seu crescimento.
   Já faz um tempo que os bonecos fazem parte da família, que moramos praticamente numa fazenda, pois vivemos no meio de muitos bichos que almoçam com a gente, tomam o suco e o iogurte do Nathan e comem suas bolachas. Se são as galinhas e os pintinhos, comem milho que ele e o vovô vão comprar no mercado. O pato toma banho no nosso banheiro, o cachorro dorme em sua cama, o pote da cozinha vira chapéu, a caixa de papelão vira bateria. O caminhão do zoológico vira rampa para os bichos escorregarem e por aí vai...
   A imaginação é algo incrível, não tem limites, não tem caminho certo a seguir e nem destino final. Apenas flui como um rio em nossa mente. O limite está apenas dentro de nós, na realidade dura que vivemos que nos impede de imaginar qualquer coisa além de nós mesmos. A vida adulta é dura, cruel, podada o tempo todo por pensamentos que nos impedem de sonhar, de imaginar algo melhor. A vida adulta é realista e não sonhadora, cheia de regras que nos impedem de ter liberdade para ir, sem rumo, sem direção. Apenas ir onde nosso coração levar, onde nossa mente quiser ir.

Levando o helicóptero para passear


"Deixa ir tire o peso dos seus ombros pra seguir
Sem se lamentar dos tombos
Deixa entrar essa luz que te define
No final ficarão somente as recordações"
(Peuqenas Maravilhas - Rob Thomas)
   




   A vida da criança é assim, cheia de ideias, invenções, histórias, criatividade, imaginação, aventura... Perdemos isso ao longo da vida? Sim. E quase ninguém tem interesse em resgatar. Acho que quase ninguém lembra que isso existe, pois a rotina nos sufoca, os compromissos nos preenchem e tudo isso torna-se secundário, sem importância. Mas na vida de uma criança isso é tudo. Cada acontecimento é uma descoberta, um aprendizado. Estar ao lado de uma criança nos permite resgatar essas qualidades que um dia tivemos tão fortes dentro de nós.
   Criar uma história antes de dormir inédita que faz a criança se acalmar, dar vida aos bichos para eles conversarem e participarem da brincadeira do filho. Inventar algo que os bonecos estão fazendo para que a criança dê continuidade a brincadeira. É um esforço, e confesso que fico feliz quando consigo inventar algo incrível que ele se interessa e gosta. Me sinto vitoriosa!

   
   Vê-lo inventar as histórias me inspira. Confesso que penso muito de onde vem as ideias. Como que um objeto tão óbvio para mim como um potinho plástico torna-se uma banheira para os bonecos tomarem banho. Ou como a areia no balde de praia torna-se um bolo super saboroso que todos provam e gostam. Ser criança é assim, simples, cheio de invenções e ideias criativas.
   O despertar da imaginação é uma habilidade, um passo no desenvolvimento infantil. Acredito que deve ser estimulado e valorizado, pois ao longo da vida isso se perde, a gente querendo ou não. Penso que estimular a criança a imaginar o que é belo lhe dá base para, no futuro, enfrentar a realidade em que vivemos.
Seu cachorro preferido, o Kiko


“Ver um mundo num grão de areia,
E um céu numa flor do campo,
Segurar o infinito na palma da mão,
E a eternidade em uma hora”.
William Blake
   




   Tenho participado de forma ativa, interagindo nas histórias e também observando como cada objeto torna-se real, apreciando a capacidade do Nathan em dar vida aos seus amigos e fazê-los participar do seu dia-a-dia. Ele conta o que acontece para eles, leva-os para passear, dar "tchau" quando vai sair. Acho isso lindo! Isso me renova, me faz ver um mundo mais belo, com possibilidades, simplicidade e amor.

Pato, dando uma voltinha

"A vida se faz com essas horas
Pequenas maravilhas na voz do coração
Mundos se vão mas essas horas breves horas ficarão"
(Pequenas Maravilhas - Rob Thomas)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ele cresceu!


   As roupas ocupam mais espaço no varal, logo enchem o cesto e com a bermuda grande abaixo do joelho, ainda é possível ver muita perna. Opa, ele cresceu! Não só em estatura, mas em ideias e atitudes. Agora é tamanho dois para blusa e calça. O sapato 22, mas se for 23 também serve!
   Deixando de ser bebê e se tornando menino, querendo ser menino, mas ainda bebê. Às vezes bebê, às vezes menino. Ele cresceu! Ainda usa fralda e chupeta, mas já toma um leite com café na xícara igual a nossa. Toma mamadeira, mas muitas colheradas chegam a sua boca com suas próprias mãos. Já escolhe o que quer vestir e, principalmente, o que não quer. Bebê em algumas atitudes e menino nas ideias. E quantas ideias...
   Ideias contrárias, ideias criativas, ideias surpreendentes, ideias reprovadas, ideias apavorantes, ideias expressadas, ideias contidas. Bebês aceitam as ideias de outros, meninos já têm suas ideias!
   Opiniões existem, mesmo que ainda não fale tudo o que deseja. Histórias também, conta tudo que acontece, formando frases com as sílabas de cada palavra que conhece. Difícil? Um pouco, mas há dois anos estou treinando como intérprete, então me saio bem!
   Ele cresceu! Aos poucos deixa de se chamar de neném e se chama “Nanu”, que significa Nathan. Um novo momento, não é mais um neném como todos os outros que vê na TV, na praça ou por onde vai. Agora ele é ele mesmo, assim como só eu sou a mamãe, só o papai é o papai, etc. Tem autonomia, parece gente grande e é ele mesmo!

   Ainda gosta de entrelaçar seus dedos no meu cabelo quando vai dormir ou em situações de insegurança, mas logo demonstra sua felicidade em locais espaçosos, com natureza e liberdade.
   Deixando de ser bebê, se tornando menino e eu, me tornando mais mãe a cada dia. Não estou me tornando nada além de mãe, mas ser mãe é se transformar o tempo todo a medida que o filho muda e cresce. Uma arte um pouco difícil. 
   Ver o filho fortalecer suas asas a cada dia é uma alegria, mas vê-lo alçar seus primeiros vôos é um pouco desconfortável, dá uma certa insegurança. Reprimir jamais, incentivar sempre. Diferentes opiniões, limites a serem dados, às vezes não, às vezes sim, como fazer, o que fazer e como dizer. Ele entende tudo, até o que está no ar e nos nossos corações. Cada palavra tem que ser pensada e cada atitude é uma tentativa de ser exemplo. A difícil arte de educar... Ser mãe é deixar crescer, sem deixar de ser aquilo que eu quero que ele veja para poder crescer. 

"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses." 
 (Rubem Alves)


“Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar.”    
 (Rubem Alves)

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